“Era meu 3º ano tentando entrar na faculdade. Eu sabia que minha família
não teria condições de manter meus estudos. Mas, mesmo assim, nunca me
direcionaram para outra área. Nossa situação financeira não me impediu de
correr atrás do que eu queria”, conta Beatriz.
Nota máxima na redação
Quando recebeu a prova do Enem e viu que o tema da redação era “Desafios
para a formação educacional de surdos no Brasil", Beatriz começou a
chorar. “Não acreditei. Comecei a estudar Libras há dois anos, para me
comunicar com uma amiga surda”, conta.
Ela havia se tornado intérprete da língua de sinais para os seguidores
da igreja que frequenta. “Não achei tão difícil, porque tenho contato direto
com a comunidade surda, que me impulsionou a continuar”, afirma Beatriz.
A jovem conta que, na redação do Enem, argumentou sobre a falta de
intérpretes capacitados para atuar nas salas de aula. “Não basta formar
qualquer tipo de profissional. Existem aqueles que têm capacidade de trabalhar
em tribunal, em teatro, em igreja ou em escolas. A sociedade é muito ignorante
e não vê Libras como algo importante e oficial”, diz.
“Há um tempo, fui levar minha irmã a uma unidade de pronto-atendimento e
vi três surdos lá, desamparados, porque nenhum funcionário sabia língua de
sinais. Ninguém pensa nisso”, completa.
Cotas para negros e pobres
A jovem foi aprovada no Sistema de Seleção Unificada (Sisu)
pela cota de estudantes de escola pública, autodeclarados pretos, pardos ou
indígenas, com renda familiar per capita inferior a 1,5 salário mínimo. Ela
cursou o ensino médio em uma Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) do Rio
de Janeiro. No último ano, percebeu que “estava zerada em matemática, em física
e em conhecimentos básicos” – e então procurou um cursinho.
“Consegui uma bolsa de estudos porque minha prima havia estudado lá e
passado na UFRJ. No meu segundo ano no preparo para o vestibular, continuei com
a bolsa porque tirei nota boa na redação do Enem (Exame Nacional do Ensino
Médio)”, conta.
Ela defende a política de cotas por ter vivenciado a dificuldade de uma
estudante de escola pública conseguir recuperar o que não aprendeu no ensino
médio.
“Isso não é sistema de benefício a ninguém. É a forma de o governo corrigir um erro que é deixar o negro de lado, negligenciar a educação do pobre.
Por anos, não tive matemática nem biologia”
Fonte : G1

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